quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Infraestrutura



Me chama a atenção o modo como alguns famosos falam de seus auxiliares domésticos. Os educados fazem referências carinhosas e dizem coisas como "a minha casa é muito bem cuidada pela fulana." Chegam a não acreditar quando amigos estrangeiros ricos não tem mais do que uma faxineira por não saberem lidar com uma pessoa de fora todos os dias dentro de suas casas. Há os que, como um ator, são cínicos, "eu moro aqui, não trabalho na minha casa".

Uma amiga ao fazer o doutorado em Barcelona, faxinava ela própria a casa para economizar a diária - que lá é expressiva - e poder ter outras despesas mais interessantes.

Este é o ponto. A nossa cultura não traduz apenas um passado escravocrata mas encarna um presente onde as relações de trabalho rendem uma ninharia para os que tem acesso a menos - educação, cultura, saúde, comida, moradia.

Se todos em casa colaboram nas tarefas (pais e filhos), fica menos pesado para cada um. E, sim, a diária de pessoas que prestam serviço de limpeza e afins deve valer a pena para os que trabalham.

Com relação aos filhos. Fico me lembrando do que li de um psicanalista - é preciso perseverar no papel de pai e mãe. Afinal, o bacana é se relacionar com a pessoa que veio de você e não ficar apenas administrando babá.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Herança


Meu pai me ensinou a escolher frutas e desfrutá-las: manga, cana-caiana, goiaba, jabuticaba, laranja lima, pêra, araçá, carambola, abacate, pinha, pitanga, figo. Muitas delas plantadas por ele mesmo em casa ou no pomar da propriedade.

Me mostrou os animais: porquinhos, bezerrinhos, vacas, touros, cavalos, pato, galinha, ganso, sabiá, coleiro, pardal, rola, bem-te-vi, canário, quero-quero. Ele sabia imitar o canto e tinha uma caixa com apitos de madeira que reproduziam esses sons - uma lindeza.

Vem dele o meu jeito de tratar bem quem trabalha comigo e não é meu chefe ou superior.

É lógico que meu pai tinha defeitos, mas hoje quero falar das coisas boas que ele me deixou.

Não deixem de ler

o ótimo artigo da Lúcia Hippolito sobre a estabilidade política que estamos vivendo. A melhor retrospectiva que vi.

CARNAVAL

Vocês sabiam que no Brasil existe a profissão "mulata-show"? Confira em O Globo, nas fichas com os dados das candidatas `a "mulata do Góis". E, sem querer ser chata: tem umas fotos de bunda em close que ajudam a afirmar a péssima imagem de que brasileira é puta. Não precisava. De mau gosto, entre tantas outras fotos bonitas e apimentadas que mostram o belo corpo das passistas. Depois não venham reclamar de turismo sexual.

Ser mãe é...

achar que ida ao supermercado é programa.

Ser mãe é...

dar uma de aeromoça para apaziguar o medo.

MEMÓRIA




Alguns cheiros e sensações me remetem `a minha infância. Quando estou no banho e passo Neutrox no meu cabelo, lembro-me do clube que frequentava. Quase posso me transportar para o banheiro de azulejos brancos onde tomávamos banho depois da piscina. Quase me sinto no corpo da menina que eu era.

A brisa fresca do mar que entra pelas janelas do meu apartamento na Glória, sem nenhum impedimento de prédios, me remete para as casas de veraneio de Marataízes, no Espírito Santo. E revivo sensorialmente em segundos o descompromisso daqueles dias.

Algumas pessoas dizem, fulano escreveu tal livro falando de coisas que realmente aconteceram. Ou, esta história é baseada em fatos reais.

Outras se empenham em declarar que sua produção literária é pura ficção.

Ora, nenhuma criação se faz de geração espontânea. Escrevemos (estou falando sobre
literatura que procura qualidade) com o que vivemos, imaginamos, sonhamos, tememos, aprendemos, duvidamos. Somos afetados pela vida e o que sai da gente nos diz respeito sim, mas é ficção. Ou você já viu duas pessoas contando uma história vivida em comum do mesmo jeito? Impossível. Cada um faz o seu recorte. Minha irmã não tem a mesma imagem do pai que tivemos e por aí vai.

E o jornalismo, então? Como é que fica? Deveria ter compromisso com os fatos reais, e, normalmente, tem, até porque é o produto que põe a venda (o de qualidade, claro). Mas não se engane, por mais que tentem enquadrar o texto, uma construção jamais será igual a outra, graças a Deus.

A ciência mais dura é uma construção humana e, como tal, um discurso criado pelo homem, que tem tudo a ver com quem o cria. Durante muito tempo se acreditou que o sol girava em torno da Terra. Ciência? Sim, mas também pura ficção.É bom ter cuidado com o que se acredita e duvidar, `as vezes, faz bem.

Que venha 2010!